As estimativas da vida. Exposições cinematográficas do jurídico, do homem e da tecnologia: como podemos evoluir na sociedade do novo.

As estimativas da vida. Exposições cinematográficas do jurídico, do homem e da tecnologia: como podemos evoluir na sociedade do novo.

De antemão, este pequeno texto quer trazer duas dicas envolvendo filmes e séries de conteúdo profissional e tecnológico: O filme “Worth” (Netflix, 2020) e a série “Upload” (Amazon, 2021).

Os filmes retratam situações interessantes sob o ponto de vista de quem trabalha com tecnologia, dados e profissões bastante conservadoras.

O filme Worth é estrelado por Michael Keaton e retrata a saga de um advogado acostumado a propor acordos envolvendo indenizações. Os atentados de 11 de setembro tornam-se parte dos trabalhos do escritório do advogado Feinberg em que se vê no dilema de calcular o valor de uma vida perdida.

Dentre diversos aspectos que se possa obter de um filme naturalmente denso pela tragédia do onze de setembro, nota-se a perspectiva da justiça americana frente aos acordos envolvendo os riscos jurídicos de uma ação envolvendo a responsabilidade civil pelos danos materiais e morais e a utilização do recurso da estatística e jurimetria para solução de casos análogos.

No entanto, o filme traz a reflexão sobre o valor da estatística frente a indenização envolvendo uma vida humana e principalmente a doutrinação do profissional advogado acostumado a beber da mesma fonte por muitos anos. Essa é a história do advogado Feinberg, muito acostumado a construir equações matemáticas para encontrar um coeficiente que traga reparação as vítimas e ao mesmo tempo aliviar os responsáveis de processos judiciais e a possibilidade de altas condenações.

No entanto, essa iniciativa acaba não funcionando por “N” questões e o filme busca apresentar que a forma law-economics da advocacia norte americana, em situações envolvendo tragédias como foi a do onze de setembro, pode não funcionar.

No cenário brasileiro, nós temos a cultura da empatia embutida em nós, o que faz do profissional brasileiro, obter características mais humanas na solução de problemas envolvendo indenizações de vítimas e grandes corporações. O nosso cenário político, legislativo e judiciário nos entrega uma perspectiva muito mais centrada na dignidade da pessoa humana do que na necessidade de apresentação de números, estatísticas e dados.

Este contraponto da tendência à jurimetria e adoção de estratégia através dos dados é o que me faz absorver a crítica sutil que o filme apresenta, dado ao liberalismo econômico e ao capitalismo existente no Estado de Nova Iorque. E embora uma espécie de “final feliz” tenha sido oferecida ao filme, os profissionais vivenciam dilemas que são facilmente compreendidos pela perspectiva de que a academia jurídica não estava preparada para ouvir a dor, mas atender apenas a precificação do dano.

Por outro lado, a série recém lançada pela Amazon Prime (2021) Upload tem um forte apelo e crítica a sociedade da hiper informação, destinada a produzir reflexões de natureza religiosa, política, cultural e econômica. O ponto central do tema é relevante e aborda questões que poderão ser verdadeiros dilemas aos espectadores.

No entanto, o que nos chama a atenção é a preocupação de algumas grandes companhias adquirirem direitos sobre obras que são o contraponto da tecnologia que as próprias empresas buscam oferecer, o que nos parece muito sensato e ético. Em outras palavras, nós assistimos um seriado de alta crítica à uma sociedade que é faminta por tecnologia, mas que ao mesmo tempo estimulam estupidez humana.

Os dilemas apresentados na série também são de cunho ético, profissional e humano, na sociedade dos dados.

Qualquer empresário ou interessado neste mercado deverá oferecer um amplo arsenal de facilidades para a sociedade? Sem dúvida. E qual é o preço disso? Isto é, de que forma as tecnologias são ou não um processo de construção da sociedade que queremos?

Está bastante claro que a sociedade não pretende conviver com profissões que não apresentam assertividade nas informações que são propagadas. Está claro que a sociedade busca democratizar a informação nos mais variados níveis, o que incomoda os poderosos ou os acadêmicos que defendem a informação como poder central de escravização das classes menos favorecidas.

De outro lado, o esforço de inúmeros tecnólogos da informação e de empreendedores, investidores e empresários em busca desta relação envolvendo democracia, justiça e tecnologia revela um protagonismo voltado a um código de computador, e que nós defendemos como quase-solução e não a solução para o problema, pois em sociedade humana, há que se considerar as variáveis que são provocadas pelos próprios indivíduos.

Em outros termos, não há como prever e prover o absoluto, o imponderável código da vida, que por sua vez é incerta, instável e dinâmica.

A coexistência da tecnologia com as profissões merece ser vista e revista muitas vezes, por ciclos que possam estimular debates interessantes e próprios a sociedade que construiremos para nossos filhos.

Há sim uma boa porção de empresários que estão preocupados com o fator sociedade em suas tecnologias. Existem os que estão surfando a onda e aqueles que buscam apenas a riqueza material. Em nossa opinião, a perenidade será atingida com a primeira opção, pois naturalmente a tecnologia pensada à sociedade reflete o desejo, empodera o usuário e constrói um exercício firme de uso de quase-soluções, ou os códigos de computador, que chamamos de programas, softwares, aplicações, apps, etc.

A virtualização da vida é um dos pontos de altos debates nas universidades americanas e o caso é bastante curioso. De 2010 para cá, com a explosão e consumo de devices cada vez menores e portáteis, tornou-se quase uma “moda” qualquer sujeito desenvolver um programa de computador capaz de enriquecê-lo sob uma justificativa de torna a vida das pessoas mais fáceis. Alguns softwares são estimulados por fundos de investimentos e tornam-se populares em algum tempo, devido a forte ação de marketing, ao passo que outros, são mais tímidos e ganham popularidade com o passar do tempo.

Seja no mercado de nichos ou em escalabilidade expressiva, a dinâmica é a mesma: lucro, utilidade e dependência. E essa tríade torna-se especialmente cruel em atividades que exijam a intervenção intelectual, o fator humano e o ajuste do débil.

É bastante corriqueiro e até fácil a criação e o desenvolvimento de esteiras padrão de vendas, de compras, de atividades operacionais e repetitivas, que com o uso da tecnologia substituem controles ineficientes por ajuste preciso e fundamental no crescimento empresarial. No entanto, quando há a necessidade de ajustar um modo de coexistência da repetição de tarefas com a pressão pela correição das atividades, há um profundo abismo, pois nem a tecnologia e nem os estudos produtivos e engenhosos são capazes de resolver quebra-cabeças intensos, como são os casos que envolvem situações dilemas, como é o caso apresentados no filme e no seriado da Amazon.

A sociedade empresarial recorre a uma demonstração de tecnologia ao usuário, ainda que seus processos internos sejam extremamente atrasados ou problemáticos.

O melhor exemplo que se pode oferecer ao leitor é a empresa que desenvolve um aplicativo para que o usuário tenha uma impressão de aquisição de tecnologia, quando em verdade, recebe um serviço nada tecnológico, pois a essência da produção, seja intelectual, mecânica, produtiva, industrial, é um conglomerado de artesãos ou de ineficiências compostas. Há muito disso no cenário brasileiro, pois nos acostumamos a compreender tecnologia como uma solução advinda de um computador ou dispositivo móvel. E a verdade é que nós ignoramos essa situação porque não parece ser nosso problema. Mas é.

A nossa sociedade vivenciará o tédio de construções tecnológicas que são autocentradas no desenvolvedor e na empresa que o produz. Este empobrecimento é social e o maior ponto de preocupação de qualquer pensador de tecnologia e sociedade, pois será nossa moradia no futuro.

O pleito da correção do padrão que está em desenvolvimento, envolve a sua percepção do que que você adquire e dos modelos que são admitidos em cada decisão tomada.

Não se trata do efêmero da moda ou da novidade em cada vilarejo tecnológico. Tampouco é necessário obediência ao argumento de autoridade que é fundado em ostracismo irracional sob justificativas a razoabilidade de uma liturgia pandectista, morta, decadente.

É preciso admitir algum tipo de tecnologia, mas como fator de evolução social e não um fim em si mesmo. A admissão merece status de quase solução para os problemas modernos de escassez.

Não é difícil a compreensão, quando buscamos entender o papel e importância de uma vida descentralizada de poder, aberta ao diálogo e receptiva para soluções melhores que as nossas.

Essa expectativa a falência ao culto ao ego de alguns empreendedores/empresários é essencial. A sede pelo domínio de classes sempre existiu, mas hoje está travestido de tecnologia. Essa dinâmica vem criando desvios sociais democráticos, alinhando discursos de extrema dureza, por vezes ditando regras que a própria sociedade não precisa para uma sobrevivência digna. Os excessos são conhecidos por todos e residem nos debates inúteis sobre política, religião e paixões individuais.

Este tipo de consequência ocasiona a ruptura entre visões humanizadas em termos de tecnologia e obscurantiza o próprio uso da tecnologia.

Concluindo, os trabalhos cinematográficos trazem contrapontos interessantíssimos embora os enredos em alguns momentos desviam o foco para romances entre as personagens, o que nos parece uma estratégia para prender a atenção dos que precisam de um mergulho profundo sobre a sociedade que estamos construindo.

Em matéria de desenvolvimento do poder, muitos são raposas velhas. Em matérias de inovação em tecnologia, todos aprendizes. É a coexistência destas potências que tornará a percepção social rica e a depender de nossas escolhas, o destino será ou não como os trabalhos de ficção que temos visto nos trabalhos de Hollywood.

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