Futurismo: Profissionais, preconceitos e porque a tecnologia não ameaça o poder do conhecimento.

Futurismo: Profissionais, preconceitos e porque a tecnologia não ameaça o poder do conhecimento.

Na onda de oferecer uma aplicação tecnológica com o viés de “solução”, discute-se nos últimos cinco anos o futuro das profissões, especialmente as que envolvem conhecimentos adquiridos ao longo dos anos, como é o caso dos médicos, advogados, engenheiros, entre outras profissões tradicionais.

O mundo assiste “assustado” como as ferramentas de tecnologia alteram mercados e eliminam profissões operacionais, tal qual a industrialização o fez no final do século XIX. Mas é preciso dizer que é bastante diferente os cenários.

A filosofia da tecnologia despertou estudiosos para conhecer a respeito da nova mentalidade que será requerida dos profissionais, pois será necessário reparar a forma construída do pensamento.

Em outras palavras, a sugestão dos estudiosos é que os profissionais mantenham seu conhecimento apurado, mas que apoiem-se nas alterações da forma de dividir o conhecimento e compreender o que de fato é conhecimento e o que é mera operação.

 

I – Furadeira ou buraco na parede?

 

Uma das principais histórias que ilustra a necessidade de alteração do pensamento é retirada de uma convenção envolvendo vendedores técnicos de ferramentas. Na abertura da convenção de vendas, o palestrante apresentou um slide contendo uma furadeira elétrica com brilho e imponência e logo depois perguntou a plateia se aquela ferramenta era o que vendiam. Todos os executivos afirmaram que sim.

O palestrante apresentou um novo slide, desta vez contendo uma imagem de um buraco perfeito em uma parede residencial e informou que o que eles verdadeiramente vendem não é uma furadeira elétrica, mas o que os consumidores precisam obter através da ferramenta.

O futuro dos profissionais envolvendo profissões tradicionais mostra-se desafiador, pois precisa visualizar além das ferramentas que possui para oferecer o conhecimento. Atualmente, tais profissionais estão inclinados a oferecer seus conhecimentos em menor tempo, menor custo ou melhor que o concorrente. E só. Não conseguem ver o verdadeiro valor que existe no seu conhecimento, pois não conseguem enxergar além de uma ferramenta em suas mãos.

A Consultoria Global KPMG compreendeu essa situação e dedicou-se nos últimos anos a utilizar a frase ´We exist to turn our knowledge into value for the benefit of our clients.’

O buraco perfeito na parede da KPMG consistiu em oferecer valor através do conhecimento que seus profissionais possuem, alterando apenas a forma tradicional de negociação de preços e pressa ao cliente.

O conhecimento e as profissões são demasiadamente importantes, pois elas permitem auxiliar os cidadãos a viver e trabalhar de forma confortável em sociedade, à medida que a expertise absorve diversos tipos de problemas sociais e complexidades que requerer conhecimento e organização, situação que os leigos não possuem e que por isso precisam de um profissional.

Na prática, essa situação é o encontro entre pessoais leigas e profissionais que detém o conhecimento para solucionar o problema delas.

Nós procuramos os profissionais porque eles sabem coisas que nós não sabemos fazer ou proceder. E esse balanceamento é claro quando nomeamos a relação entre doutor e paciente, advogado e cliente, professor e aluno, ministro e membro, consultor e empreendedor, conselheiro tributário e empresário e por assim em diante. Em soma geral, todos os recebedores de serviços profissionais estão em busca do conhecimento que tais proporcionam para solucionarem os seus problemas.

Retornando ao exemplo da furadeira e em cotejo com as profissões, o que se espera dos profissionais não é a sua capacidade de diminuir valor agregado dos serviços ou alto poder de negociação, mas uma profunda honestidade na apresentação do seu conhecimento através da disposição de retirar de um amontado de livros a solução certeira para àquele que procura o profissional.

Não se pode esquecer que o mundo está competitivo e que as relações estão baseadas em preço, sem detrimento da qualidade e desta ponderável equação que se busca até hoje o equilíbrio.

Todavia, o bom profissional deve ter em mente a sua real participação em sociedade: – buscar entender qual e como é o buraco da parede que o cliente pretende, ao invés de vender uma furadeira elétrica.

 

II – Preconceitos dos Experts

 

Em nossas atuações profissionais, especialmente em mercados em desenvolvimento como é o caso do brasileiro, há uma espécie de preconceito com atividades que são desenvolvidas pensando em cenários envolvendo futurismo. E nesta seção eu quero apresentar os mais comuns na expectativa de trazer reflexão para o leitor.

É bem provável que a resistência e o preconceito sejam vencidos por uma nova geração de profissionais. Mas de outro lado, não quero desperdiçar os profissionais experientes, pois levantados os preconceitos, teremos uma sociedade forte em busca da ampliação do conhecimento e experiência. Este é o desafio de quem atua com inovação.

 

(a) Continuar como está

 

Este é um preconceito bastante forte e poderoso. A preferência de profissionais pela manutenção da forma de trabalhar e dividir conhecimento manifesta através de diversas formas, mas uma delas, em especial é mais difundida entre os profissionais: a imunidade.

Estes profissionais aceitam que as profissões em geral precisam de mudanças significativas, mas preferem que em suas próprias não haja alterações. Muitas das vezes, estes profissionais colocam à inovação uma frase bastante comum: “você não entende sobre o que eu faço!”. Essa frase vem acompanhada de uma lista de características de seus trabalhos que o profissional julga inapropriado qualquer mudança, por menor que ela seja. No entanto, frequentemente é uma falácia e bem suspeito este discurso, pois à medida que este profissional diz que as outras profissões precisam de mudança, porque a dele não precisaria?

Um dos principais argumentos para sustentar a atividade da maneira como está é a falácia dos “hard cases” ou “casos estratégicos”. Este profissional dirá que uma nova metodologia ou sistema não poderá resolver X ou Y, quando X e Y são problemas extremamente difíceis. No entanto, esquecem-se de comentar que na maioria das vezes, tais desafios são excepcionais em suas atividades cotidianas, concentrando o argumento sempre em situações atípicas como forma de manutenção do status quo. Este argumento é errôneo e precisa ser desafiado pela transformação e inovação.

 

(b) Rejeição Irracional à Tecnologia

 

Neste ponto encontramos preconceitos interessantes, como é o caso da rejeição irracional. Nós definimos isso como uma rejeição dogmática de um sistema com o qual o “cético” não tem experiência pessoal direta. Este profissional geralmente está de braços cruzados, rejeitando propostas de tecnologia sem observar o que tais tecnologias podem contribuir ou oferecer de facilidades na sua realidade profissional.

Este profissional tem viés crítico e tendência a descartar qualquer aplicação que ameaça o trabalho através da novidade. Outra característica é o apelo deste profissional ao dizer que o sistema é bom e até deve trabalhar muito bem em outras áreas, mas que em sua área não ofereceria nenhuma melhoria significativa.

Este preconceito é geralmente fundado no medo do desconhecido e naquilo que se deixa de controlar. Algumas vezes é baseado na crença de que as tarefas profissionais devem ser naturalmente exclusivas e personalizadas, mesmo em uma sociedade que respira e respeita blocos de comportamentos idênticos.

Seja de uma forma ou de outra, este tipo de profissional se mantém bloqueado e impedido de experimentar novas tecnologias, afetando um progresso formidável para a empresa em que trabalha.

 

 

(c) Miopia Tecnológica

 

Este segundo preconceito está estruturado na tendência de subestimar o potencial das aplicações do amanhã porque a avaliação do profissional está focada apenas nas tecnologias atuais. Em outras palavras, a inabilidade consiste em não conseguir observar que a tecnologia tem um progresso mais rápido do que a sua capacidade de compreender que não compra soluções para um período muito longo.

A título de exemplo, numa pesquisa recente nos Estados Unidos, alguns advogados e médicos decidiram rejeitar aconselhamentos com clientes através de videoconferência porque as suas experiências com o skype para falar com os netos foi arrasadora.

A miopia tecnológica é o primo de um fenômeno da retrospectiva do modernismo, listada por Frederick Maitland, o historiador jurídico.

Ele se referia as limitações de visualizar e avaliar eventos históricos através das lentes do hoje. Os eventos passados são melhor compreendidos no contexto do tempo em que ocorreram. É uma erudição pobre, por exemplo, julgar decisões passadas por referência ao que aprendemos desde então, isto é, com a vantagem de ter uma retrospectiva em mãos.

Da mesma forma, embora não tenhamos o benefício da previsão, não devemos permitir que a obsessão ao presente impeça nossa visão do que está por vir.

 

(d) A tal da Inteligência Artificial

 

A falácia da Inteligência Artificial como grande ceifadora do trabalho de profissionais é um preconceito à sua adoção nas organizações e isso precisa ser corrigido. Há uma suposição equivocada em sociedade de que a única forma de desenvolver sistemas tecnológicos com performance futurista é somente através da inteligência artificial.

Ou que, ainda, ela será no mesmo nível de profissionais experts ou que será possível a replicação do pensamento humano nos níveis mais profundos. Essa visão antropocêntrica da inteligência do software é bastante limitada e errada, além de impedir que a tecnologia seja uma aliada aos profissionais, especialmente para performar tarefas que nas atividades profissionais somente humanas levariam muito mais tempo para serem concluídas.

E isso não tem a ver com a substituição do profissional e sim com a sua capacidade de entregar em menos tempo uma solução mais adequada ao seu cliente.

 

III – Porque a tecnologia não ameaça o conhecimento

 

Essas razões nos levam a afirmar que nenhuma tecnologia será capaz de ameaçar as profissões que trazem em seu bojo um verdadeiro conhecimento, que seja capaz de mudar a forma como pessoas vivem em sociedade. Isso é, se este conhecimento detido pelos profissionais trouxer valor a sociedade, eles continuarão a permanecer e a sobrevivência estará garantida. Não será qualquer regulação ou preconceito ou ferramentas de contra marketing que impedirá a solução natural de profissionais sem conhecimento dos que decidiram entregar suas vidas a estudos mais profundos.

A regulação e determinação não impedirão os avanços por muito tempo. Essa prática política e devastadora de crescimento social vem ocorrendo desde o início do século XX, mas vimos que a destruição ocorre via de consequência através de uma sociedade que se cansa de absorver as mesmas percepções. Em outras palavras, o destino das profissões não compete a si próprias, mas aos leigos que dela se socorrem. É do médico que precisa do advogado o poder de dizer como o advogado poderá atendê-lo e a melhor forma que isso ocorrerá.

Do mesmo modo, é do advogado o poder dizer como o médico poderá socorrê-lo em caso de moléstia, pois como dissemos no início deste texto, não é sobre a furadeira elétrica, mas sobre o buraco na parede que o leigo pretende adquirir uma ferramenta. E neste caso, nos parece mesmo sem furadeira elétrica, o buraco fatalmente irá ocorrer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Selecione o departamento no qual deseja falar:

Central de Suporte

Central de Suporte

Comercial

Vendas