O mundo pós tecnologia: futurismo e resistência

Eu seguramente vivo em três mundos diferentes. O primeiro mundo é aquele das relações, com certa dose de mecânica e incertezas. Neste mundo, ainda vislumbramos o futuro como uma espécie de enredo nada positivo da nossa funcionalidade como seres humanos. E talvez por isso, nós resolvemos tantos problemas da mesma forma. Neste mundo, as ilusões são compradas e nosso exercício de crença está fundado na esperança das relações darem certo. Nós adquirimos e comercializamos estoques com os recursos finitos do fundo próprio.

O segundo mundo é o da transformação. Ele é um millenial e atingiu a maioridade. Nas nações mais ricas, o desenvolvimento é acelerado pela ansiedade em prover uma economia mais saudável. A sociedade atinge uma percepção um pouco mais realista do que o mundo anterior, mas ressente-se das modificações que foram necessárias em prol de um progresso que chegamos a desconhecer.

As relações costumeiramente foram entregues a materialização do eu, a objetificação das minorias e adquirimos respeito por dignidades da pessoa humana como um valor intrínseco do direito do ser.

De forma oposta, há desejo por uma vida mais líquida e superficial e dedicamos nosso tempo, escasso por natureza, a encontrar formas técnica e lógicas (para não dizer tecnológica) de nos dedicar ao ócio, pois nossa produtividade já não produz a mesma esperança e o nosso sentimento de orgulho deu lugar a uma espécie de epidemia do tédio.

Neste mundo, o reinado é da informação e dos dados, embora seus súditos não o conheçam muito bem. Entre o poder e a graça desta família real, ainda nos contaminamos das percepções da corte real, embora existam milhares de pessoas tentando convocar eleições e democracia deste Estado do conhecimento.

Nossas doenças são outras. Ainda não encontramos cura para o câncer, vencemos uma pandemia, lutamos contra a polarização (ou nos dedicamos a um lado da moeda) e há algum desejo social de erradicação da pobreza. Somos sociais sem valor concreto que o mundo anterior vivenciava com normalidade. Nossos passos foram dedicados a uma transformação que não parece ser social, mas mera decisão de negócio. Não introjetamos em nossa mente o novo consumo, as novas relações e o sepultamento de velhas práticas. Somos bem resistentes a mudanças, pois elas ocasionam o que de mais detestável pode haver: zona de conforto.

Nós vivemos de ansiedade e Alprazolam, Rivotril e Cafeína, em polos opostos tentando equilibrar o desequilíbrio da sociedade que não aprendeu a se respeitar no reinado do conhecimento. Nossa reserva e fundos são dos outros e as famílias venderam seus impérios empresariais para um amontado de desconhecidos investidores. Nos falta a alma do mundo anterior e um propósito que seja conhecido por todos. Desistimos de assinar nossos projetos.

E o terceiro mundo é de onde escrevo. É uma sociedade que já experimentou a tecnologia e viu que ela é uma quase-solução, um quebra cabeça sem fim. Nossos recursos foram investidos na tentativa de encontrar a melhor produtividade pela aquisição de um produto que prometia nos devolver o tempo e a dedicação no que realmente importa. Os gestores sentiram um gosto amargo de fracasso quando encaminharam seus orçamentos em volta de uma falácia. Em estruturas menores e sem complexidade, nós vimos a automação dar conta de substituir os seres humanos ou evitar novas contratações. Mas das estruturas médias a seguir, não encontramos a mesma ideologia. Nesse mundo da pós tecnologia, a centralidade do usuário é tão premissa quanto a habilidade acadêmica e as profissões foram redefinidas. O padrão de consumo e os papeis de consumidor e fornecedor não são mais polarizados e sofrem uma crise.

No mundo anterior havia uma certa exigência pela adequação da economia compartilhada nos padrões tradicionais, mas a escassez de trabalho e tempo foram determinantes para a vitória dessa liberdade compartilhada.

Embora chamamos de liberdade, a vigilância aumentou e nos acostumamos a ter de obrigar a respeitar a privacidade através de acordos privados e propagação do óbvio ululante de respeitar o espaço alheio.

Neste mundo, deparamo-nos com uma série de ineficiência de processos e pessoas que não sabem o que fazer com o tempo livre. Ou porque se cansaram de tanto pensar ou simplesmente porque não se dedicaram a ir além de seus conhecimentos obtidos. É um mundo que acolheu a diversidade, o empoderamento feminino, mas que recusa-se a refletir sobre os impactos de uma sociedade que vivencia o ócio de maneira jamais dantes apercebida.

Eu venho deste futuro para te contar que a solução é uma tríade conhecida desde o mundo antigo: pessoas, processos e tecnologia. E a dosimetria ainda está na mão dos gestores e que é dele a responsabilidade pela criação de um sistema social adequado. Não é que se pretenda levantar uma bandeira com uma flâmula maior que o mastro que a carrega.

Em outras palavras, as empresas continuarão a desenvolver os seus negócios, com ou sem transformação digital genuína, com ou sem revisão de processos, com ou sem compliance e ESG. Você não pode mudar isso ou controlar esses fenômenos, mas pode certamente escolher nas pequenas atitudes em qual sociedade pretende criar seus filhos, afilar a sua carreira e construir relacionamentos.

Daqui em diante, no mundo da pós tecnologia, voltamos os olhos para o resgate e valorização de processos e pessoas, pois resolvemos nossa ansiedade por soluções prontas, seja quais forem. Nós construímos uma infinidade de soluções maravilhosas de produtividade, mas esquecemos que elas por si só não formam o resultado da sociedade que queremos. Em outras palavras, continuamos a buscar soluções e esgotamos uma das vias mais rapidamente do que pensávamos, pois tornou-se commodity qualquer quase-solução, ou como chamávamos no mundo anterior: aplicações ou programas de computador.

Eu deixo ao leitor a reflexão da sociedade que vivemos aqui no mundo da pós tecnologia. Uma sociedade que tornou-se vaga ao dizer para o outro o que é necessário. Uma sociedade que trata o risco através de inúmeros algoritmos, que revisa e analisa linguagens naturais em percentuais altíssimos. Mas é uma sociedade que não lida bem com o ócio e com a crítica. Não lida bem com qualquer modificação da ilusão do controle próprio.

Eu estou contando através desta carta, que é publicada para no máximo dez pessoas lerem até o final. Que essas dez pessoas sejam influenciadas pela busca de um conjunto de solução e não uma aplicação. Não é o método mais barato e tampouco o mais sedutor, mas definidamente é a percepção mais próxima do que a sociedade do mundo pós tecnologia precisa: – uma razão para continuar vivendo em esperança natural, sem risquificar todas as ações e meios.

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